
Eu sou Engenheiro !
Era muito comum a um profissional de nível superior recém-admitido pela Vale, chegar a Itabira, passar pelo escritório da empresa no Areão e partir direto para o local de trabalho a fim de conhecer as instalações. Depois é que ia procurar acomodações de hospedagem, geralmente no Isolado.
Assim aconteceu com José Eduardo Bumachar Pereira. Foi contratado para substituir Murilo Serpa, engenheiro ferroviário que cuidava do embarque do minério, cargas gerais e passageiros da E.F.Vitória a Minas . José Eduardo podia ser considerado um sujeito boa-pinta: olhos esverdeados, cabelos cor de mel, eloqüente, postura de galã .
Nosso inexperiente colega, após tomar posse de seu novo cargo na “Estação Ferroviária de João Paulo”, apresentou-se como candidato a hóspede no Isolado. A "quadrilha" de veteranos encontrava-se reunida na sala de estar, batendo papo após o jantar, atrapalhando a novela que o Vadinho Barbosa, com seu tradicional pijama listrado, tentava assistir. O recém-chegado, muito desinibido, entrou na sala de cabeça erguida, botou a maleta no chão e se apresentou para a patota, abrindo os braços, com um largo sorriso:
– Êi gente, eu sou o novo engenheiro ferroviário ! Acabo de ser empossado!
Antonio Berti vislumbrou ali uma excelente oportunidade para tirar um sarro as custas do calouro e não perdeu tempo. Levantou-se mirando o recém chegado de alto a baixo e exclamou para que todos na sala o ouvissem :
– Ora, ora ! Vejam só quem está aqui ! Um candidato a Jerry Adriany dos pobres! Acho que você errou o endereço, parceiro. O concurso de melhor cantor é lá no palco do Cine Itabira.
O rapaz arregalou os olhos, incrédulo, e taramelou :
– Mas eu não sou cantor ; sou colega de vocês, com muito prazer ! Meu nome é José Eduardo Bumachar, o novo engenheiro da SUEST (Superintendência da Estrada de Ferro) em Itabira. Perguntem pro dr. Murilo !
Antônio Berti voltou à carga, implacável :
– Olha aqui, garoto! Nós sabemos que você não é engenheiro p nenhuma. Você tem cara de técnico de nível médio. A república dos técnicos é lá perto do campo do Valério. Você é muito cara de pau !
Virou-se para a turba, mal escondendo o riso, e prolongou o deboche :
– Vê se pode uma coisa dessas...se apresentar, logo aqui, como engenheiro!
O nosso desditoso colega “engoliu a corda”... abriu a maleta, apanhou o registro provisório do CREA e o sacudiu no ar , triunfante:
– Vejam ! Eu sou engenheiro ! Eu sou engenheiro ! Vocês estão enganados !
Nessa altura, a galera já havia entrado na onda de gozação. Tomaram-lhe o documento e, passando-o de mão em mão, duvidaram de sua autenticidade afirmando que "aquilo” qualquer gráfica podia fazer. Queriam ver o original. “Onde estava a carteira do CREA ?”
E o Berti arrematou crucificando : – Na realidade, sem qualificação superior, você é somente um “agente” da estação... vai ser apenas o “ZÉ DO TREM”. Contudo, somos magnânimos e compreensivos com os novos funcionários. Por hoje, você pode jantar e dormir aqui ; porém, amanhã bem cedo, você vai “caçar” seu rumo.
E o desconsolado rapaz tentava contrapor desatinado :
– Pessoal, vocês estão enganados...eu sou engenheiro...vou ser o responsável pelo embarque. Podem perguntar ao dr. Murilo Serpa !
Foi uma noite de glória...pegar um novato para alvo de chalaça, especialmente aquele galã deslumbrado, que “engolia tanta corda”.
Daquele dia em diante o apelido grudou nele; virou emblema do cargo. Poucos o conhecemos como José Eduardo Bumachar. Gente fina , o Zé do Trem !
Enviado por : Sérgio Antônio da Silva Guimarães
Retocado por : Jota Ramos
Um comentário:
alô flávio. gostei muito da ilustraçào do texto .
abrçs. j m s ramos .
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