domingo, 16 de setembro de 2007

UMA LATA DE SKOL


UMA LATA DE SKOL

O Isolado estava permanentemente em festa e qualquer eventualidade era motivo para mais uma. Só não vi por lá batizado de boneca e aniversário de cachorro porque foi a “socialite” madame Vera Loyola quem lançou essa moda, muito anos depois, para agraciar sua cadelinha Mimi.

Desta forma, a simples “ameaça” feita pelo nosso colega Antônio Berti, em contrair núpcias, ensejou-lhe uma festa de arromba comemorativa à sua despedida de solteiro. Berti era também conhecido como “parceiro”, “italiano” ou "bagliaccio", pois assim tratava a maioria de nossos colegas.

Desde o alvorecer a casa foi tomada por intenso rebuliço. O festejo seria aberto com opíparo rega-bofe, um daqueles que só a Olinda sabia coordenar, e rolaria pelo restante do dia, quiçá se estendendo pelas sombras da noite até a névoa da madrugada.
Pelas onze da manhã, começaram a chegar os convidados, colegas de trabalho, em sua maioria casados, que moravam nas vilas técnicas da CVRD.

Bebidas e tira-gosto rolando à vontade. Tudo farto como costumava ser nas festas do Isolado. O nível do ruído ambiente foi aumentando em decibéis, com brincadeiras e gozações, acompanhando a ascensão do nível etílico.
Lá pelas duas da tarde foi servida a rainha das feijoadas – borbulhante, perfumada, deliciosa. Prestava-lhe vassalagem um séqüito de pratos subalternos : arroz branco, filigrana de couve, farofa , laranja fatiada e molho picante. A caipirinha corria solta. Um garrafão da “branca” esvaiu-se em guias. Brindes intermináveis eram erguidos ao radioso futuro dos nubentes. Pratos e copos eram reabastecidos com reiterada volúpia. Pelo brilho nos olhos e unto nos lábios dos convivas poder-se-ia inferir o sucesso da gastronomia.

Como diria São Camilo de Lelis (o do hospital): “Em toda feijoada que se preze deveria haver uma ambulância à porta, para o caso de eventual socorro aos comensais”.
Com o passar das horas, os casais foram se retirando, restando apenas o pessoal da casa e alguns colegas de Vitória que estavam a serviço em Itabira.

Eu morava naquele quarto em frente à sala de estar e de repente começaram a espocar bombinhas . A bomba era lançada de forma rasteira, resvalava no chão e tomava a direção dos incautos, explodindo-lhes nos pés. E os sustos iam se sucedendo! Alguns colocavam bombas dentro das panelas vazias (Olinda ficava uma fera!) e outros debaixo dos capacetes de serviço.

De repente, o tiroteio cessou. Alguém afirmou ter acabado o estoque de bombas. Mas a esbórnia continuou, agora com o arremesso de latas de cerveja (vazias) e capacetes (indestrutíveis) um em direção ao outro, sem machucar ninguém.
Milton Rocha, craque de bola, fazia embaixadas com latinhas vazias, no meio do cenário, sem se importar com o burburinho da patuléia.



Encontrava-me recostado na porta do meu quarto, bem defronte a porta de entrada do Isolado. De lá, naquela confusão etílica, veio voando em direção ao meu rosto uma lata de skol. Peguei-a no ar, com a mão esquerda, e passei-a por trás do corpo, para a direita, tentando arremessa-la de volta. (Até então eu não sabia que havia uma bomba dentro). Naquela fração de segundo, enquanto segurava a lata, a bomba explodiu !

Senti o deslocamento de ar. Foi aquele impacto: BUUUM! ! !
E o mais intrigante – não doeu! Apenas começou a esguichar sangue onde o metal estilhaçado rasgara a artéria da mão. (Alguns maliciosos disseram depois que urinei na lata). Fiquei aturdido! O primeiro a me socorrer foi Geraldo Bosi tentando, a todo custo, estancar o sangue com sua camisa, o que conseguiu alguns instantes depois. Em seguida, Pilonel tentou me levar ao hospital. O carro do Piló estava com o farol queimado, já era noite escura e o apavoramento se juntou a nós. O hospital ficava no mesmo bairro (Campestre), no sopé da avenida Cauê, esquina com SENAI. Não era longe, mas o trajeto pareceu-me infindo.

Fui prontamente atendido pelo doutor Sad Zaglul. Entrou comigo no ambulatório nosso grande colega, Fernando Garro. Havia outra pessoa na sala... acho que era ... Bosi e Tonico Gordo; divisei sombras difusas, minha mente divagava. Fernando ficou ali, sem se afastar um só instante, me dando força naqueles instantes de eternidade em que o cirurgião costurava minha carne .

Saí do hospital atordoado, alinhavado com 24 pontos. O braço na tipóia parecia carregar a mão de outra pessoa: dura, pesada, inerte; não obedecia comandos.

Retornei ao Isolado. O clima era o pior possível. A festa acabara e a sala estava imaculadamente limpa, sem vestígios de sangue. A turma séria, calada. Os colegas mais conservadores, com uma advertência pronta na voz grossa: “eu sabia que esta brincadeira de mau gosto ia dar no que deu!”

No outro dia, quando fui agradecer o apoio dado pelo Fernando Garro ele me disse que não conseguia ver sangue, tinha sido a primeira vez.

Então lhe perguntei : – Mas como é que você agüentou ali, de pé, o tempo todo?
Ele me respondeu com uma piscadela de olhos:
– Cara, eu “tava” tão cheio de cerveja que não conseguia me afastar da sala!
Durante uma ou duas semanas as bombas cessaram; mas depois, voltaram a pipocar para alegria geral .

Aquela “brincadeira” era marca registrada da nossa república e um “pequeno” acidente não daria cabo ao tradicional entretenimento que, penso eu , só teve desfecho indesejável naquela única vez .

Enviada por : Cloysio Ulrich de Souza
Retocada por : Jota Ramos
Itabira, setembro/2007.

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