
“Seu” Intelecto
Antes da Valia, muitos só se aposentavam aos 70 anos. Sem vigor para serviços pesados, a Vale lhes dava funções que permitiam prosseguirem dignamente até a “compulsória”. Essas pessoas mantinham seus salários, bem melhores que a pobre aposentadoria pelo “Instituto”, trabalhando como porteiros, ascensoristas, vigilantes e, também, jardineiros.
“Seu” Intelecto, era um desses jardineiros, na Vila Conceição, em Itabira. Já beirando seus 70 anos, inteligente, gentil, alto, magro, ereto e elegante, cabelos brancos ressaltados pelo contraste com a cor da pele, merecia o apelido, pois além de usar um empolado, mas preciso vocabulário, falava até um pouco de francês! Para a jardinagem nas residências atendidas, conseguia, feliz, pedir e receber instruções nessa língua.
Claro que ele não chegava e dava um simples “Bom dia, o que deseja que eu faça hoje?”. Era “Bonjour, Monsieur! Qu´est ce que vous voulez aujourd’hui?” Se você o cumprimentasse e pedisse para plantar uma roseira, por favor, mas dizendo : “Bonjour, Monsieur L’ Intellect! Je vous demande de replanter ce rosier, s`il vous plaît”, teria o mais motivado, dedicado e cuidadoso dos jardineiros!
Todos adoravam aquela folclórica figura – e ele era respeitoso, educado e formal - exceto um dos médicos do Hospital da Vale, que o julgava pedante, pretensioso, até meio “metido a besta”! Um dia, “seu” Intelecto, em sua ingenuidade, ignorando a opinião do doutor, foi consultá-lo, se queixando, sempre com seu palavreado muito bem escolhido, de estar com uma “certa purgação no pênis”.
O doutor viu ali a oportunidade de quebrar o que julgava ser arrogância do simpático e correto velhinho, e quis colocá-lo em constrangimento. Em vez de simplesmente receitar-lhe uma boa penicilina – a panacéia que naquela saudosa época resolvia todas as afecções da “região” - mandou que ele tirasse toda a roupa e se deitasse na mesa de exames. Iniciou uma preleção sobre a naturalidade com que médicos e enfermeiras lidam com o corpo humano, prontamente interrompida por “seu” Intelecto que, claro, compreendia perfeitamente e não se sentiria incomodado, conforme disse.
Então, o médico mandou entrar a mais bonita das enfermeiras, fez a moça segurar o pênis do “seu” Intelecto em posição vertical e pingou um remedinho qualquer na uretra. Ao jardineiro, que pretendia humilhar, disse ser necessário que ela ficasse segurando por um certo tempo, até que o remédio penetrasse bem! A enfermeira estranhou o inusitado procedimento, mas agiu na linha de “se o doutor mandou, vou cumprir”.
O médico se afastou um pouco para rir da ridícula situação que impusera àquela tesa figura quixotesca, já planejando como contaria aos amigos da Vila Conceição. Seu triunfo pouco durou. Foi implacavelmente suplantado por nosso querido e incólume “seu” Intelecto que, ao cabo de alguns minutos sem demonstrar o menor embaraço, declarou, solene e firmemente, para alívio da moça já ruborizada e preocupada com o “crescimento” do problema : _ “senhorita, muito lhe agradeço, mas não mais necessita permanecer segurando ... ele já fica por si!”
“Causo” verídico contado por Guilherme Almeida Gazzola.
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