O GAVIÂO REAL
Gilberto Coutinho veio para Itabira trabalhar no almoxarifado do campestre com o Amaral (Harvey Expedito) no início da década 1970. A Vale estava em plena expansão. A chegada de equipamentos importados, principalmente da Alemanha, para montagem da Usina de Concentração , transformou a rotina do pequeno almoxarifado.
Foi necessário triplicar o numero de funcionários a fim de se dar conta das encomendas. O pátio do campestre, ao lado do estádio do “Valério”, ficou tomado por caixotões enormes, feitos com pinho de Riga, contendo máquinas e equipamentos diversos.
A família de Gilberto morava em BH, e todo final de semana ele ia para a capital mineira. Achava um enorme absurdo ter que levantar às quatro horas da manhã, nas segunda-feiras, para estar em Itabira a tempo de pegar o serviço . Em uma de suas “vindas” para Itabira, já nervoso com a neblina , sem domínio perfeito da visão , atropelou um gavião (que também não devia estar enxergando nada) em pleno vôo . O pequeno acidente ocorreu na famosa curva dos eucaliptos. O bicho ficou tonto e Gilberto guardou-o na mala do carro. Ao chegar ao Isolado, colocou-o numa espécie de viveiro, que Olinda usava para "descansar" galinhas antes do sacrifício para o molho pardo de cada dia.
O gavião tornou-se a novidade da casa. Imediatamente se formaram dois grupos de sabichões, profundos conhecedores da fauna avicular, tentando classificar o atordoado “hóspede”.
O primeiro grupo, mais numeroso, dizia ser um legítimo gavião-carrapateiro (Milvago chimachima); ave falconiforme de dorso pardo, cabeça e parte inferior brancas, e cauda branca listrada de pardo.
O segundo grupo, menor – porém mais aguerrido –, afirmava solenemente, tratar-se de um gavião-mateiro (Micratur ruficolis); ave falconídea de coloração branca acinzentada, parte inferior castanha, cauda preta listrada de branco.
Na realidade, os dois são meio aparentados. Seja como for, não se chegou a um consenso “científico” a respeito do belicoso bípede emplumado. Para Gilberto, tratava-se de um legítimo gavião-real, o mais lindo dos condores que pairam, altivos, pelo anil dos céus.
Tomou-se imediatamente de amores pela ave capturada, à qual passou a dispensar o mais delicado desvelo e refinada alimentação. Chegou ao extremo de encomendar artrópodes e caramujos (escargô), para o fino paladar e deleite do gavião, que a cada dia se mostrava mais confiante e reabilitado.
Gilberto estava eufórico. Ligou para o sobrinho pedindo que contratasse um treinador de falcões, pois pretendia levar o dito cujo carcará para ser adestrado em Belo Horizonte, assim que fortalecesse suas asas .
O Isolado era mesmo uma casa eclética, cheia de pensionistas com os mais variados interesses. Uns gostavam de gavião, outros de passaredo miúdo.
Um dos moradores, Éder (Jorge Arantes), era tarado por curió (Oryzoborus angolensis) : ave passeriforme, fringilídea distribuída por todo o Brasil. O macho é preto, com abdome vermelho, um espelho branco na asa, e a fêmea, parda, com a parte inferior amarelada.
Pois bem. O Éder possuía um curió de elevado valor e estima. Mestre na arte do canto, vencedor de vários certames, gorjeava sete “flautas” consecutivas em mavioso trinado que a todos embevecia. O campeão, de anilha na canela, vivia em gaiola dourada, bebedouro de cristal; era tratado a sete farinhas – de linhaça à granola.
O pássaro era obrigado a ouvir, como lições diárias, gravações de outros curiós-mestres, em fitas K-7, para imitar-lhes o canto e apurar seu gorjeio.
Um belo dia, Éder teve que se ausentar de Itabira e deixou, com mil recomendações, sua “avis rara” aos cuidados de outra : Pilonel (Felix Pereira), também conhecido por Piló.
Todos pressentiram que aquilo não resultaria num final feliz.
Assim que Éder viajou, Pilonel decidiu pendurar a gaiola junto ao viveiro do quintal para o curió “ensinar” o gavião a cantar. A avícula, sentindo a presença ameaçadora de um predador natural, aterrorizou-se e, deseperada, debatia-se na tela tentando fugir. O gavião só olhava para ela, com o mesmo apetite que os “marmanjos” olhavam para as telefonistas da “Companhia”.
Depois da pretensa (e inútil) “aula de canto”, Piló devolveu a gaiola ao um abrigo seguro, mas o malefício já estava consumado. Aquele curió nunca mais abriria o bico.
Ao retornar da viagem, Éder estranhou o desânimo do pássaro e percebeu nele alguns ferimentos leves. Comentou o assunto na hora do almoço mas não obteve retorno. Notou que alguns colegas escondiam algo dele e outros apresentavam um sorriso diferente no semblante. Ninguém lhe contou o ocorrido. Foi melhor assim. Preservou-se a integridade física do Pilonel.
Havia outro colega no Isolado conhecido por João (Carlos Rodrigues) Sensação. Recebeu esta alcunha porque a qualquer notícia que se lhe chegasse aos ouvidos, repetia : – ai, que sensação ... ! Era um obstinado cabeçudo; difícil de se lidar com ele. Vivia às turras com Artur Galinha (Ferreira de Souza Melo), que também não era fácil.
Na hora do almoço do dia seguinte, João Sensação teve uma discussão com Arthur Galinha. Ficou P da vida e, de sacanagem, soltou o gavião do Gilberto que nada tinha a ver com a querela dos dois.
Ao se inteirar da vilania, Gilberto ficou tão puto que começou a gaguejar de tão nervoso. Perambulava aflito em torno do viveiro vazio, repetindo seguida e desconsoladamente:
– eu só que-que-ro saber quem foi o fdp que so-so-soltou meu gavião! Se eu souber, eu ma-mato ele! – Lógicamente não apareceu nenhum culpado.
O cair da tarde trazia quietude sobre a cidade. Por trás do Cauê, o sol recolhia o último feixe de raios dourados que escorregava silenciosamente pela escarpa lisa da montanha.
Dentro de casa, todos se reuniram em torno da mesa para o jantar, quando entra “alguém” excitado , com excelente notícia para Gilberto: – O gavião está de volta !
Muitos correram afoitos até o quintal para confirmar a novidade. No viveiro, gavião não havia. Pendurado ao poleiro, no lugar dele, o desenho de um avantajado “passaralho”, com os seguintes versinhos:
“ Do meu amigo Gilberto,
uma grande pena eu sinto;
ao invés de gavião...
eu dou pra você um pinto ! ”
Notas da redação :
A autoria dos versos acima permanece como um segredo tumular, até os dias de hoje.
Alguns moradores da casa dizem que a idéia de soltar o gavião, não foi do João Sensação.
Enviada por : Sérgio Antônio da Silva Guimarães.
Retocada por : Jota Ramos.
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Um comentário:
Boa noite, Flavio:
Estava tentando localizar um amigo e ex-chefe meu -Superintendente de engª Indistrial na CARAIBA METAIS-BA, Mina de cobre, cujo nome é Pilonel Felix Pereira(Piló). Que tb.foi superintendente na Vale do R.Doce
Acredito não ser este a que vc. se refere, mas quase morro de rir com a matéria- Parabens.
AGEU MENEZES
Sertânia- Pernambuco
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