Causo do José Maria Ramos.
Chego amanhã, de avião fretado .
Entrei pela primeira vez na casa 4 da Av. Cauê, em fevereiro de 1971. Tinha acabado de pegar meu diploma em Ouro Preto e vim direto para a Vale, em Itabira. Já me habituara com a vida de troça nas repúblicas estudantis da antiga Vila Rica, famosas por suas bulhas e traquinadas . Mesmo assim, a irreverência permanente e a esbórnia reinantes no Isolado me deixaram deveras impressionado. Aquilo sim, era um verdadeiro “ninho de cobras”.
Eu já havia feito todos os testes, sido aprovado, e aguardava convocação para trabalhar na Cia. Vale do Rio Doce. Antes mesmo de chegar a Itabira me passaram o primeiro trote.
O Antônio João (Martins Torres) ficou sabendo que o Marcos Tadeu havia convocado mais um geólogo (eu, no caso) para trabalhar em Piçarrão. Pegou um formulário de telegrama, daqueles antigos com emblema dos correios, botou endereço e datilografou o texto abaixo:
“ DR MARCOS TADEU VAZ DE MELLO pt RECEBI SUA CONVOCACAO TRABALHAR CVRD pt ESTOU PORTO ALEGRE MAS CHEGO AMANHA BHZ AVIAO FRETADO DEVERAH SER PAGO POR SUA EMPRESA pt AGRADECO OPORTUNIDADE pt SAUDACOES vg JOSEH MARIA RAMOS”.
Colocou o envelope na sala deserta do Marcos Tadeu, no escritório da Mina Cauê; voltou para sua sala e ficou “antenado”, aguardando a chegada dele.
O prédio do escritório era comprido, tinha dois pavimentos e ficava “dentro” da mina, na elevação (banco) 1102 em frente ao britador primário. Mais para além, situava-se a oficina de caminhões pesados. Ao lado, estava o almoxarifado e atrás, jazia um depósito (pilha) de hematita granulada (lump). A poeira era uma constante e, quando se detonava o minério, aquilo tudo balançava fazendo inveja a Richter e sua escala vibratória.
Quando o Tadeu entrou e leu o conteúdo do comunicado, quase arrancou os últimos fios que lhe restavam na cabeça. Perambulou atônito pelos corredores. Com os olhos muito esbugalhados, brandia o telegrama no ar enquanto vociferava :
– Esse geólogo novato é doido; gastar uma fortuna com aluguel de avião para uma entrevista sem urgência nenhuma. Acho que convoquei o cara errado !
Foi direto para a sala do Otávio Neves, fez um breve relato do ocorrido e lhe mostrou o telegrama. Otávio leu a mensagem. Fitou o rosto avermelhado do Tadeu e lhe recomendou: – Calma rapaz ! Você está muito afobado; fazendo tempestade em copo d’água . Vamos combinar o seguinte: quando o geólogo chegar aqui, você observa se ele tem cara de quem saiu do Raul Soares (Instituto hospitalar de BH para tratamento psiquiátrico). Se ele mostrar aparência de doido, mande ele embora; contrate outra pessoa!
Pronto! Estava armado o meu infausto destino. Começava aí o meu calvário.
No dia seguinte, cheguei todo feliz e saltitante, me apresentei no escritório. A sala era simples: birô com duas cadeiras de madeira, prancheta de desenho, mesa de luz, armário de aço e uma mapoteca entupida de mapas empoeirados, enrolados como canudos.
O Tadeu, meio acabrunhado, com cara de poucos amigos, me cumprimentou formalmente e foi logo interrogando :
– Você está vindo de onde?
– Estou vindo de Raul Soares, (que é minha cidade natal) – respondi candidamente.
Ele me olhou pasmado, como se eu fosse um selenita pintado de roxo. Pelo semblante dele, comecei a desconfiar que alguma coisa não ia bem .
– Mas ... de onde você passou o telegrama ?
– Que telegrama?
– Do fretamento do avião !
– Qual avião? – perguntei perplexo!
Ele remexeu nervosamente em um escaninho e sacou, triunfante, um telegrama todo amarfanhado que empurrou em minha direção.
– Este aqui ó! – exclamou vitorioso – e não me faça de besta porque eu não sou idiota!
Tomei o documento de suas mãos agitadas e reli várias vezes sem entender bulhufas.
Marcos Tadeu estudava minha reação com ares entre zombeteiro e vingativo.
Pigarreei . Pedi licença para acender um cigarro – naquela época eu fumava imbecilmente – sentindo meu corpo desconfortável na cadeira dura . Mudei de posição e tentei me defender meio sem jeito:
– Mas não fui eu quem escreveu este telegrama! – tartamudeei .
Minha voz saiu baixinha, irreconhecível, parecendo ser de outra pessoa. A fumaça amargava minha boca; travava minha garganta. Do lado de fora, o ronco formidável dos caminhões fora-de-estrada, estremecia a vidraça das janelas.
Depositei o papel sobre a mesa e consegui levantar as vistas para meu “inquisidor”.
Ele me olhava penetrante e fixamente . Na minha mente (adeus emprego), via um leão prestes a dar o bote final. E o golpe veio, fulminante, na forma da pergunta irrespondível :
– Então...com todos os diabos ! QUEM FOI QUE ME ENVIOU ESTE MALDITO TELEGRAMA ? ? ? – trovejou ele.
Naquele instante eterno, ouvimos uma gargalhada incontida, vinda da sala ao lado. Era o Antônio João ouvindo nossa conversa. Como Tadeu já conhecia as artimanhas do gajo, deduziu imediatamente quem havia sido responsável por mais aquela patuscada.
Para meu imenso alívio e glória fui dispensado de dar maiores explicações . O enrolo estava destrinçado. Acabava de conquistar o emprego que tanto almejara.
Itabira, agosto/2007. - j m s ramos.
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